À mim...
A ansiedade começou na compra do ingresso. Eu sabia que aquele pedaço de papel era minha chance, tão esperada, de revisitar momentos, sensações e sentimentos passados...
Foi como se eu estivesse com a oportunidade de rever alguém que já morreu nas mãos...
Esperar por aquele terceiro sinal foi muito mais especial do que qualquer outra espera, em qualquer outra poltrona de teatro. A música de entrada do público não era mesma, mas ainda assim trazia pros ouvidos a mesma melodia que tantas vezes embalou nossa expectativa atrás das cortinas.
E o espetáculo começa! Terceiro sinal e o grande pano azul se abre. Com a boca de cena completamente aberta a fumaça invadiu a platéia, e eu senti o cheiro da glicerina que tínhamos de soltar 10 minutos antes do início da primeira cena. A mesma fumaça branca que invadia os corredores e salas lá embaixo e subia pelas grades colocadas pacientemente no palco.
Eu esperava por surpresas, mas não contava que elas fossem surgir aos meus olhos com tanta rapidez! A primeira cena tinha sido modificada, e me bateu um desespero, passou pela minha cabeça que muita coisa poderia ter sido alterada, mas mesmo assim coloquei em risco todas minhas expectativas. Eu poderia sair dali odiando tudo, mas...
As mudanças que vieram nas cenas seguintes não me impediram de sentir tudo o que eu estava disposta a sentir.
Ainda tinha na memória grande parte do texto. O que deveria estar na boca só dos atores inevitavelmente entrou na minha cabeça como a letra de uma música que se ouve todos os dias. Saber a deixa e esperar pelo próximo movimento do ator não fez o espetáculo perder a graça, muito pelo contrário, voltei meus olhos pra coisas que eu nunca tinha visto antes, ações que, por estar escondida na coxia esquerda, me impedia de assistir.
A moeda que foi jogada pro cantor de ópera, o isqueiro que iluminou o recado de “Helen”, o barquinho de papel feito nas escadas, são minhas memórias materiais. Não ficam mais dispostos numa mesa de madeira esperando para serem conferidos pela diretora de cena, estão comigo e ainda as guardo com muito zelo. Um pedaço da ‘Avenida’ que roubei pra mim.
E com os trovões veio minha inquietação. Esperava a mulher que sairia para comprar a cerveja. Ela precisava abrir o guarda-chuva e aí sim eu poderia girar o registro e soltar a “chuva”...Sim, aquela mesma chuva que caia nesse ‘novo’ espetáculo, uma vez tinha sido derramada por mim...
A coreografia debaixo daqueles 7 mil litros de água ainda era encantadora, mágica. Incrível mesmo pra mim que sei todo o segredo. Fico ainda com a curiosidade inocente; “De onde vem e pra onde vai tanta água?”.
As luzes que vinham das laterais faziam brilhar a cortina de água que caía com força e foi essa visão que me deu de volta a lembrança da nossa coreografia, parcialmente seca, fora de cena. E de repente eu parei completamente de assistir o espetáculo como apenas mais um daqueles que estavam sentados naquelas poltronas. Eu assisti a coxia, eu assisti atrás do ciclorama, eu assisti as escadas. E eu lembrei de todos os movimentos, das trocas de roupas que deviam ser feitas com sincronia, perfeição e muita agilidade, da contra-regragem disposta em todos os pontos estratégicos, das piadinhas que vinham das cenas, das brincadeiras que saiam da coxia pro atores em cena, dos comentários que eram feitos religiosamente em momentos específicos, das reclamações quando a chuva estava fria, do “trânsito” por trás do prédio...
Avenida Dropsie me fez voltar no tempo, me fez ser parte de novo, fez minha memória voltar naquela época e sentir tudo aquilo de novo, e eu gostava...
De todo o processo...Todo.
Sair, ir embora, deixar aquela caixa de mágicas não foi doloroso, porque o encantamento ainda continuava. Subir pelas escadas brancas só me remeteu ainda mais a época que eu tinha de “voar”, coxia a baixo, tirando o uniforme pelos corredores, me trocar em menos de 5 minutos e sair correndo com minha mochila nas costas. Não perder o ônibus era o objetivo. Tive de novo a sensação de ser A estagiária. Senti como era ser, de novo, parte da equipe. Quantas noites eu fiquei esperando o ônibus e vendo o público se dispersar tecendo todos os tipos de comentários. E voltei pra uma época que minha única preocupação era tentar dormir mais que cinco horas por noite, me dar bem na prova de ciências políticas no dia seguinte, e principalmente, com toda a confusão que eu conseguia arrumar naquele lugar.
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